quinta-feira, 27 de maio de 2010

Qualquer lugar


Joana permaneceu estática, fumando qualquer cigarro que achou jogado ao chão do seu quarto revirado, acendeu no instante em que ouviu a batida da porta, sentindo o gosto de cigarro barato, bom o gosto, forte. Não correu atrás, nem mesmo levantou-se da cama, jogou o seu corpo para trás, com uma leveza, soltando a fumaça do cigarro barato, vendo surgir no teto do quarto escuro qualquer imagem que a fumaça fazia por si só, e sentindo surgir um sorriso canto de boca, querendo esconder qualquer coisa que pudesse surgir, qualquer coisa como sentir.


Agora ela poderia colocar o som alto, dançar pela casa, cantar desafinada, correr pela casa fumando um cigarro, deixando cair as cinzas em qualquer lugar, sem se preocupar, e foi o que fez durante os dias que se seguiram, até o dia em que, num repente, em meio a dança pela casa, ouvindo blitz e mascando chiclete, sentiu um aperto no peito, e era como se o seu corpo todo, todinho, estivesse se diluindo, e ela virava nada, nada no chão da casa.

Refugiada dentro do próprio corpo, longe de todos, escondida do mundo, sentiu o abraço do alguém que ela não via. Jogou-se na cama, fumando filtro vermelho, viu fumaça formar canalhamente um coração, e sentiu lagrima rolar no seu rosto, e sentiu, e sentiu, e sentiu.

Tarde demais pra correr atrás, pensou Joana, jogando com leveza seu corpo para trás, sorriso canto de boca, lágrima nos olhos, mascando chiclete e ouvindo blitz com um cigarro na mão, soltando as cinzas em qualquer lugar. Qualquer lugar.

Um comentário:

deh ramos disse...

aaaaaaah! droga, eu chorei.. odeio ter que falar depois sobre o texto com os olhos embaçados de emoçao. tsc tsc.

LINDO, MUITO LINDO.

ando refugiada em mim mesma.. talvez tenha sido isso!

um bjooo ;*