quinta-feira, 9 de abril de 2009

A ladra


Hoje eu roubei a alma de uma borboleta branca. Eu sei roubar almas não é um hobby normal, mas eu não consigo, quando eu vejo, já roubei alguma. Acha que eu não fico com peso na consciência depois!? Fico, lógico que fico! Mas me é tão prazeroso fazer alguma coisa por mim, tão por mim, só por mim. Roubar almas é assim, eu não posso dividir uma alma com alguém, almas são únicas, algumas até raras, já vi almas de todos os tipos. Você quer saber como tudo começou, não é? Não tenha medo, chega mais perto! Isso, assim está ótimo. Como tudo começou!? Pois bem, eu sempre fui muito agitada, sabe! Não tinha paciência pra cuidar de mim. Cuidava dos outros, mas de mim, de mim eu esquecia; e foi então que conheci as almas. Era inverno, julho, se não me engano, novamente eu pensava nele, demais, e acabei fazendo isso durante todo o verão, outono, e o inverno seria mais 30 dias dessa nostalgia que já havia feito casa dentro do meu corpo, foi então que por mim passou uma jovem de cabelos negros, curtos, caminhava rápido, e sorria muito, e eu não conseguia entender como ela podia sorrir enquanto outros sofriam, aquela felicidade me incomodava, me enojava, ela passou rapidamente, e me olhou profundamente nos olhos, com aquele sorriso estampado na cara redonda dela, esses segundos de olho no olho, foram eles os culpados, eu vi a alma ali, tão linda, ela tinha cor de pêssego, eu juro que podia ate tocá-la de tão vibrante que ela me apareceu, e então a moça da cara redonda baixou os olhos e correu. O que eu fiz, e como eu fiz eu não sei, nunca lembro. Só sei que me vi com alma cor de pêssego em minhas mãos, suadas. Eu não sabia o que fazer com aquilo, o cheiro que vinha dela era tão bom, era doce, que eu corri para casa, com ela escondida dentro da minha jaqueta de jeans, o aroma invadiu a casa inteira. Coloquei a dita cuja dentro da minha gaveta de meias.Deitei tentando entender o que havia acontecido, o que eu havia feito!? Pensei por um bom tempo, pensei em devolver a alma pra moça, mas não...a alma veio até mim, isso eu senti. Devolver seria um sinal de fracasso, mais uma vez! Dormi. Acordei. Feliz, como se alguém tivesse passado as mãos em meus cabelos a noite inteira, entende o que quero dizer? Fui até a gaveta, puxei, e não encontrei. A minha primeira alma estava dentro de mim, me renovando. Desde desse dia, roubar alma das pessoas se tornou tão necessário pra mim quanto comer, beber, ir ao banheiro. Você pode passar a vida deitado em sua cama, sentindo dor, ou apenas fingindo, fingindo sentir dor por não ter coragem de colocar a cara pra fora e respirar fundo as vidas que vivem enquanto você dorme, e se você sair da toca, jogar o corpo pra fora, você encontrara almas vivas, não mortas como a sua. Eu estava assim, levantava da cama pra atender ao telefone e dizer que não havia ninguém em casa, pobre do coitado que estava do outro lado da linha, sentiu meu desprezo. Quanto às almas, me fizeram muito bem. Eu sei, é egoísmo da minha parte deixar pessoas, coisas, vivas, sem alma... como elas vivem, como estão, isso eu não sei, sei que me fazem bem. E é isso que me importa agora, meu bem.A ultima foi a borboleta branca. Branco na minha teoria insignificante me soa eternidade, que coisa idiota isso, eternidade, mas enfim. Ela passou por mim, as 23 horas de um sábado. Roubei, mas tenho a impressão de que ela foi a ultima. Borboletas morrem em 24 horas. Não pensei nisso na hora em que roubei. Pensei quando cheguei em casa, ai sim, tentei vomitar ela, clamei por santo Antonio, e chorei. Ela estava em mim, e não havia fé vinda em ultima hora que fizesse isso mudar. Eu tinha 24 horas, asas nas costas e ninguém do meu lado. A ultima alma se vingou, quem sabe é isso. Escrevi isso nas ultimas horas. A Eternidade me comeu.

8 comentários:

Paulo Vilmar disse...

Ma ri a na!
Mais dia menos dia ela sempre acaba nos comendo...
Belíssimo texto!
Beijos!

D. Cristien disse...

Lindo, sem palavras.

Anônimo disse...

amor.. cada vez que eu venho aqui eu me surpreendo cada vez mais!muuuito lindo mesmo! te amo guria
Mauricio

Alan Salgueiro disse...

Lindíssimo, de uma sutileza ímpar!
Acho que no decorrer da descrição das sensações do roubo a ladra mostrou também ter uma alma, talvez precisasse ela talhá-la um pouco para perguntar-se se realmente precisava das outras.

Acho que no dia a dia existe uma maneira boa de fazer esses roubos, absorvendo das pessoas o que elas tem de positivo, sem inveja e com admiração, um tributo ao que engrandece!

Adorei seu texto, Mariana!

sofismo disse...

Lindo seu blog, adorei
Visite o meu

Silvio Junior disse...

Gostei bastante, escrito com o coração!

Beijos!

MoizaCARTUNS disse...

Roubou a alma??? Putz... o Diabo, geralmente, costuma comprar, hehehe

Zoeira! Adorei o texto. E quantas vezes roubamos a alma de alguém; e temos, também, nossas almas roubadas. Quando desprezamos quem nos ama, esnobamos, brincamos com os sentimentos de alguém... é tão fácil, mas de consequências tão terríveis.

Valeu pela visita no meu blog de tirinhas MUTUM, viu? Sempre que quiser aparecer lá, fique à vontade.

Abraços o/

Ivan Ribeiro disse...

AMEI ESSE TEXTO!!
NOSSSSAAAA QUE LINDO!!!
BJKAS NO CORAÇÃO MINHA FLOR!